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Vadiu, Vadiu...

Sobre a sorte.

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Jogadores de poker têm essa eterna busca pela sorte. Ela costuma fugir da nossa percepção sensorial, ou ao menos dos 5 sentidos ocidentalmente conhecidos. Começamos então a procurar padrões que possam ser indicadores da presença ou ausência dela em praticamente tudo na vida.


Eu sempre procuro analisar o que tem acontecido durante o meu dia-a-dia e as correlações com a sorte. Por exemplo, uma boa ação pode resultar no aumento efetivo da sorte? A mentalidade influencia no resultado? Sorte traz mais sorte?


Como o acaso além de subjetivo é relativamente imensurável, um teste empírico seria possível?


Como jogador de SNG, eu tenho um subsídio muito interessante para calcular o fator sorte. É uma parte de um programa de rastreio de mãos. Cada jogada é salva em um banco de dados, e após tratamento estatístico, verificamos se o resultado foi próximo do esperado. Por exemplo, espera-se ganhar com AA contra um KK por volta de 82% das vezes. Ganhar ou perder certa mão dependeria de fatores externos ao jogo? Verificando a disparidade entre o resultado real e o teórico esperado, temos um índice de sorte que podemos visualizar. A famosa e temida redline.
(no holdem manager o gráfico de valor esperado de torneio em sng é composto da linha verde que mostra o lucro real e da linha vermelha que mostra o lucro teórico presumido). Ao longo de um ano com bastante volume, ganhar 78% ou 85% em uma situação de equilíbrio em 82% pode traduzir em milhares de dólares.


A título de ilustração, podemos perceber como um fator externo, embora não tendo afetado minha habilidade, afetou minha sorte. O que pode ter acontecido durante esse período? mera variância?
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Como isto é apenas um post e não um livro, não vou me pormenorizar em física quântica, mas uma base teórica (da escola ocidental) interessante para traçarmos um paralelo seria o princípio da incerteza. O terrível e temido efeito do observador, que ativamente tem 'poder' para mudar um resultado.


Instintivamente ao observar um cenário fazemos predições, com base em nosso arcabouço de vivências, sobre o futuro mais provável. Dessa forma pudermos sobreviver mais tempo às diversas intempéries. Evoluímos, alguns dirão, uma capacidade incrível de previsão. Nossa criatividade e imaginação permitem experimentar futuros hipotéticos e avaliar o resultado sem precisar vivenciá-lo. Não quero entrar no mérito darwinista pois não acredito nisso, sendo adepto da teoria da ressonância mórfica que por si já explicaria de modo simples a relação sorte e nosso estado de vibração.


De qualquer maneira, ao observarmos um AA em um estado emocional normal sabemos o resultado provável de vitória, o que contribui sinergicamente nesse feedback. Em outros dias difíceis, estamos em um estado mental-vibracional onde realmente achamos que o AA será vencido pelo inimigo. Nesse momento acontece um desentendimento de informações na nossa cabeça pois se ganharmos, estamos indo contra anos de evolução e erramos nosso palpite que o AA iria perder. Estudos sobre ludopatia confirmam que nesse estado mental, o fato do AA perder é mais recompensador que ganhar.


O Efeito do observador tende, em estado de tilt a induzir menores ganhos, ou ouso dizer, tilt leva a uma propensão ao azar efetivo e percebido. Os profissionais de poker então são ensinados kevedamente que não ecziste fator sorte ou azar. Desligamos o azar percebido, mas o efetivo contia atuando.


Repare outro fator interessante, como o fato de estar acima ou abaixo do EV esperado "chama" o gráfico de volta.
elementar.jpg
Ora, matematicamente um desvio de curva resultante de variância não deveria ter memória, o esperado seria uma continuidade paralela ao ev como aconteceu com as retas laranjas. Curiosamente esse fato aconteceu numa época onde eu evitava olhar meu gráfico. Que rapidamente se recuperou com uma olhada. Teria o efeito do observador contribuído para que o gráfico restabelecesse sua paridade? Teria eu, depois de observar que estava abaixo do ev, realizado inconscientemente esforços extras para jogar melhor, diminuindo assim a variância? Talvez ambos.


Grande parte da literatura de poker atual cita o tilt como gatilho para jogarmos fora do nível máximo de foco e concentração, diminuindo nossa vantagem nas mesas e consequentemente, aumentando a variância das jogadas. Acredito que em parte isso seja correto, mas estou sugerindo que o tilt também afeta de modo direto a variância de jogadas que não necessitam linha complexa de raciocínio, a exemplo um AA na bolha onde o setup não nos deixa outra jogada a não ser o all in.



O resultado é um sentimento de culpa devido à essas diferentes sensações: por um lado queremos ganhar dinheiro, que se traduz em sobrevivência (abrigo e alimento). Por outro, queremos que nossas previsões sejam corretas, o que também se traduz em sobrevivência. Isso gera um desequilíbrio mental que acabará resultando em perdas, estas sim, não relacionadas à sorte ou azar mas à falta de habilidade induzida pela perda da dinâmica do foco.


A habilidade é incontestavelmente necessária no jogo de poker, mas a sorte ou falta delaa afeta de forma direta . Essa relação íntima gera interpretações errôneas a respeito do papel do acaso no jogo. Sim, a perda do nível de pensamento complexo causada pelo tilt leva à perdas financeiras, mas o gatilho é o puro acaso e este pode ser percebido e modulado até certo ponto. Cabe a nós praticar o hábito de ter uma mentalidade receptiva à sorte e manter esse estado em todos os aspectos de nossas vidas.


"Some luck lies in not getting what you thought you wanted but getting what you have, which once you have got it you may be smart enough to see is what you would have wanted had you known"
Garrison Keillor

Atualizado 05-03-2013 às 01:02 por Vadiu

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Comentários

  1. Avatar de Sarsante
    mto interessante seu post. eu não acredito em azar ou sorte, por isso pra mim pessoalmente, é difícil de aceitar uma variância muito longa. pq eu penso algo como: bom eu tinha 18% de chances de perder, tudo bem que a variância pode afetar isso em uma amostragem pequena - eu aceito a variância. mas quando eu perco tipo 10 vezes seguidas eu começo a ficar mto puto pq 1/5 (~18%) elevado a dez é algo muito, mas muito improvável - beira o impossível e acontece de tempos em tempos. o que me leva a questionar: pq existe uma bad run se a probabilidade disso ocorrer é ínfima e a cada xk hands ocorre? certeza que o tilt é um fator que nesses casos de "bad run" acaba sendo disfarçado pela aparente variância. vc fica puto e comete erros que não cometeria, tipo perdeu 4x seguidas AI pf com AA, na 5º vez que vc recebe AA vc vai lá e beta flop/turn e shova river e perde, simplesmente pq não deveria ter tomado essa linha vs esse vilão com esse board... mas dai entra na conta da variância, mesmo sem ter sido de fato.

    por exemplo nesse gráfico (no meu ocorre tb), a área que ficamos acima do EV é menor do que a área que ficamos abaixo do EV e na long run deveria ser a mesma se somente o fator "sorte" estivesse envolvido.

    foi um drunk post, mas acho q deu pra entender o que quero dizer.
    Atualizado 05-03-2013 às 03:31 por Sarsante
  2. Avatar de Marcelo
    [editado]
  3. Avatar de Vadiu
    Isso mesmo sarsa, mesmo que as jogadas posteriores tenham sido prejudicadas pelo erros causados no tilt, o início dela está relacionado ao acaso. Queria saber o que o marcelo escreveu hehehe
  4. Avatar de Petrillo
    Grande Vadiu! Muito interessantes as tuas reflexões! Vou fazer os comentários completos no tópico do fórum (http:////pokerdicas.com/forum/discus...bre-sorte.html), como solicitaste, mas adiante que discordo de algumas afirmações tuas simplesmente pq elas são premissas que não estão fundamentadas.

    Mas concordo 100% com a frase final: "Cabe a nós praticar o hábito de ter uma mentalidade receptiva à sorte e manter esse estado em todos os aspectos de nossas vidas."

    Ela implica numa visão positiva em relação à vida. Podem dizer que o copo está "meio cheio" ou "meio vazio", é simplesmente um modo de ver as coisas...

    Nice post Vadiu!